10 de fev de 2011

João brinca de Jonh


João é filho de um amigo do prédio onde moro.

No calorão da tarde de domingo, João se fartava de liberdade na acanhada área de lazer que os moradores compartilham, tudo debaixo dos olhares consentidos da mãe

que trocava confidencias, amenidades com outra mãe cujo filho não sei o nome.

Da varanda de casa ali no sétimo andar, clamando um ventinho e a espera de minha doce mulher aprontando-se para uma sessão de cinema, observo o vai prá lá

e o vem prá cá, João assim vestido de Adão.

O distanciamento necessário e a espontânea alegria do menino me fizeram pegar a máquina fotográfica e fazer o registro.

Pelo visor da câmera, aguardando momento mais incomum, assim como num flash, recordei por instantes o garoto levado que fui brincando por entre as sombras das goiabeiras.

João Marinheiro e arteiro, que dia desses fiquei sabendo, nasceu ariano como eu, o primeiro impulso, a criança do zodíaco.

Na flor da idade, certamente não teve tempo ainda – ao contrário do fotógrafo – de amar os Beatles e sequer imaginar que reproduziu ali naquele momento puro e inocente,

a célebre pose de Lennon ao lado de Yoko, que Annie Leibovitz eternizou para a capa da Rolling Stone.


Silvio Ferreira

Tráfego e Art buyer

4 de fev de 2011

Sobre cama compartilhada, 4 anos depois



Tudo o que importa de verdade está entre essas 4 paredes.


Sim, têm dias que quero meu quarto de volta, apenas para mim e para o Emerson.
Quero uma cama de verdade, alta, com uma colcha bonita, criado mudo, abajur e todo o resto.
Quero um colchão que esteja mais em dia que o nosso, que está mofando pelo contato direto com o chão e não exala mal cheiro, mas já foi vomitado e presenteado com inúuuumeros xixis e cocôs vazados das fraldas.
Têm dias que queria não dormir com duas crianças que se mexem mais do que ponteiros de relógio. Mãos e pés que voam em nós no meio da noite.
Têm dias que quero não ter que sair do quarto para transar.
Mas têm muitos outros dias (como hoje) em que olho ao redor e me sinto TÃO BEM.
João, com 4 anos, dormindo abraçadinho em concha com o Emerson e Helena com 1a2m, de bruços, com o bundão de fralda virado para a lua, ao alcance do meu peito para mamar quando quiser e sem que eu nem precise acordar.
Se alguém se descobrir no meio da noite é só esticar a mão e cobrir.
Se ouvir um zumbido de pernilongo, acendo a luz e o caço antes que eles carimbem meus filhotes.
Tá com sede? Aqui o copinho.
Tem alguém doente? Dorme encostado em mim, para que eu possa sentir na minha pele a evolução da febre.
Nós 4, fechados nesse quarto em que cabem apenas um colchão de casal encostado e um de solteiro e onde dormimos sem lugar fixo, espalhados ou juntinhos, ao gosto dos pequenos.
Se fui muito dura durante o dia, à noite encho-os de beijos enquanto dormem.
E quando estou carente, pulo os caras e me enrolo no Emerson.
Até pouco antes da Helena nascer, João (que sabia que eu não ficava exatamente feliz ao ser acordada às 6h00 da manhã) me acordava com um "-Bom dia mamãe linda" que eu nunca vou esquecer.
Helenoca, até outro dia, enfiava o dedo no meu olho para que eu acordasse, mas agora já ensaia um "-Mamã!!!" super empolgado e feliz ao acordar ao meu lado. Além disso, quando ela acorda muito cedo eu a puxo pro peito e ganho mais uns 15, 30 minutos de sono que não tem preço.
O -"Tchau, já estou saindo, amor", cochichado todas as manhãs pelo Emerson, para não acordar as crianças.
Bonecos de super heróis, livros infantis, apostilas de estudo, óculos e fraldas extras para possíveis vazamentos noturnos se espalham entre nós.
Vez ou outra, especialmente no inverno, ganhamos a companhia dos nossos dois gatos e daí somos 6 nesses dois colchões.
Seguros. Aconchegados.
Amor tem cheiro? Aqui em casa tem.
É o cheiro que sinto em nosso quarto, quando todo mundo já dormiu e eu estou sozinha aqui, pensando, sonhando acordada.
Tudo o que me importa de verdade está entre essas 4 paredes.
Até quando isso vai durar?
Têm dias que nos coloco um prazo para que essa esbórnia termine: 6 meses.
Têm dias que imploro para que dure para sempre.


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Adriana Guimarães